Triste fim da Happy Cruises

Happy Dolphin em Veneza
Essa história não tem muito a ver com o meu embarque ou minha vida à bordo, mas aconteceu enquanto eu estava trabalhando no navio e me marcou até hoje. 

Um bom tempo antes de eu procurar um emprego no navio, assisti o programa do Caldeirão do Huck em pleno sábado a tarde. Nesse dia, o Luciano Huck ia ajudar uma brasileira, que trabalhou à bordo de um navio, a reencontrar um hondurenho com quem ela namorou enquanto trabalhava. Acontece que quando ela acabou o contrato, voltou para o Brasil e ficou sabendo que estava grávida dele!

O programa ficou falando da moça, que estava em terras brasileiras, com um filho que não conhecia o pai, que por sua vez também não sabia que tinha um filho com a brasileira... O apresentador e a brasileira viajaram para a Grécia para encontrar o navio que o hondurenho trabalhava, que era da companhia Happy Cruises. Armaram uma festa de aniversário para o bebê e no meio da festa disseram pro cara: "Oi, você tem um filho".

A brasileira tava cheia de esperança de que ele a fosse pedir em casamento e dizer que ama ela mais que tudo, mas aconteceu um pouquinho diferente, o cara já não lembrava mais que tinha uma namorada e não rolou nenhuma declaração de amor. O programa acabou por aí, a brasileira ia ficar no navio para que eles pudessem conversar e se acertarem. Não sei como acabou a história...

Muito tempo se passou, eu já trabalhava no Celebrity Solstice e estava parando pela primeira vez em Veneza. No meu navio tem um restaurante italiano chamado Tuscan Grill, que fica bem na traseira do barco, com as paredes inteiras de vidro, fazendo com que você tenha uma vista linda do mundo lá fora. Naquela noite eu e mais uns fotógrafos decidimos jantar lá. Eu fiquei bem de frente para a parede de vidro, no fundo do porto pude ver o navio Happy Dolphin, automaticamente me passou toda a história da brasileira pela cabeça. Ao mesmo tempo tive aquela sensação estranha, de pensar que há um tempo atrás eu estava em casa, vendo aquele navio na tv e pensando que seria um sonho poder trabalhar num navio como ele e viajar o mundo. Um sentimento muito grande de gratidão. Mas eu tava lá, dentro de um navio, em Veneza, vendo pessoalmente o navio que eu tinha visto na tv. Coisa de louco, não consigo explicar.

Essa semana estava em casa, e me passou toda essa história pela cabeça. Resolvi pesquisar sobre essa Happy Cruises e saber mais sobre a companhia, que pouco se houve falar no mundo marítimo. O resultado foi chocante, a Happy Cruises havia falido. Após a falência seus tripulantes continuaram dentro dos três navios da companhia, todos sem receber seus salários pelos últimos 5 meses e sem dinheiro para comprar a passagem e voltar para casa. Além de terem seus passaportes retidos pela companhia, que tem a obrigação de cuidar do repatriamento de todos seus tripulantes. Essa situação se estendeu por quase dois meses. Fiquei intrigada demais com a história, pesquisei as datas e vi que esse navio Happy Dolphin estava docado e quase abandonado em Veneza desde que a companhia faliu, bem na época que eu fui para Veneza com meu navio.

Agora veja como são as coisas, naquela noite eu fiquei emocionada por ver esse barquinho docado junto com meu navio, achei ele tão pequenininho, ainda comentei com os outros fotógrafos sobre a história da brasileira e até achei estranho o fato de todas as cabines estarem com a luz apagada. No mesmo momento em que eu estava dentro do navio que foi considerado o número um da linha luxo em 2011, comendo no melhor restaurante à bordo, centenas de tripulantes estavam trancados dentro daquele navio, bem na minha frente, com comida racionada, sem dinheiro para se comunicar com a família e sem a possibilidade de ir para casa. Que loucura.

Essa não é uma história que tenta passar alguma moral, nem serve de alerta. É apenas uma história de como simples coisas da vida podem te marcar de uma maneira que você nem imagina e nem tudo que parece realmente é. Graças a Deus todos os tripulantes já foram para suas casas e em Dezembro passado o navio foi levado para um porto de navios "mortos". Chocante.
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